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26.08.2014 - terça-feira


O brincar, a criança e a escola


O brincar, a criança e a escola

Por Isabela Guimarães*

Muito se fala em tempos de infância e espaços para o brincar nos últimos anos. Muitos autores, organizações sociais e outras instituições preconizam a importância de valorizar e resgatar as brincadeiras da cultura popular.

Mas há ainda uma inquietação nisso tudo que me provoca inúmeras reflexões e que gostaria de compartilhar com os leitores: de que brincar exatamente estamos falando? Que espaços são esses dedicados ao brincar? O que significa dizer tempos de infância?

Sabemos que brincar é uma atividade básica do ser humano. Brincar é tão estruturante para a criança quanto o trabalho é para os adultos. Brincar é a expressão mais peculiar da criança para o mundo pois é brincando que ela expressa suas descobertas, suas angústias, suas dúvidas, suas teorias, sua forma de relacionar-se com os outros e com os objetos. O brincar é, sem dúvida, uma necessidade essencial da criança.

O mundo contemporâneo e o avanço fenomenal da tecnologia nos convocam ao brincar com máquinas. Estes por sua vez são objetos desafiadores em suas estruturas e com forte potencial de sedução. Os games, sejam eles portáteis ou acoplados aos televisores, fascinam a criançada e os adultos. Sem falar no universo da internet que favorece um verdadeiro mergulho em sites de jogos interativos. Não me coloco contra este advento e acredito mesmo que devemos aproveitar o que a humanidade vem desenvolvendo e ampliando em termos de comunicação e interação, compreendida de outro ponto de vista. Mas defendo sim que a vida, seja adulta ou, sobretudo, infantil, não se reduza a este desafio.

Há desafios saborosos e de interações humanas mais amplas quando, ao invés de sentarmos no sofá e acionarmos o controle do game, saímos de casa e vamos brincar na praça, no parque, no playground do edifício, ou mesmo no chão da sala da nossa casa, utilizando recursos que podem ser inventados, criados a partir da nossa necessidade e até onde nossa criatividade conseguir alcançar. Relembrando minha infância, e convoco estas lembranças em vocês, quando me vejo correndo descalça pelas ruas do meu bairro, subindo em árvores, pulando corda, amarelinha, elástico, jogando cinco marias, brincando de panelinhas, esconde-esconde, de bonecas, de carrinho de rolimã… Concluo que é certo afirmar que a vida social mudou bastante no sentido da violência crescente e dos espaços públicos e coletivos, cada vez mais reduzidos. E é exatamente neste ponto que cresce a importante função da escola neste contexto entre tempos e espaços para a infância.

A escola de educação infantil é um dos lugares onde a criança dispõe de tempo e parcerias de outras crianças para brincar e conviver. Deve ser um espaço que promove brincadeiras, momentos de interações e favorece a produção criativa infantil. As rotinas escolares devem prever e planejar o brincar como elemento central da sua prática e não como uma atividade de momento livre. Resumir esta ação a situações esporádicas ou ao preenchimento de lacunas de um planejamento que não inclui o brincar como eixo de trabalho, é fundamentá-lo como apêndice e não como o coração da infância, que pulsa, que bate, que dá vida a imaginação e a atos cada vez mais criativos, se exercitados e vividos, individualmente e coletivamente. A escola como espaço coletivo de aprendizagens tem a tarefa de garantir o direito das crianças ao brincar, ao fazer criativo, menos consumista e espontâneo no sentido de permitir sua livre expressão de sentimentos e ideias, de deixar fluir o faz de conta, situações simbólicas estruturantes e compreendidas à luz de Piaget, Vygotsky e Winnicott através das relações estabelecidas entre desenvolvimento cognitivo, interação da linguagem e da cultura, mediação e compartilhamento de experiências.

Resgatar as brincadeiras de mãos (cama de gato, passa anel e etc), de chão (amarelinha, coelhinho na toca…) de versos, parlendas, cirandas, é resgatar nossas brincadeiras de antigamente, repertório tão importante para a construção histórica infantil que vem sofrendo influências de dois aspectos: a redução de tempo para vivenciar o papel de ser criança, tendo em vista tantas outras tarefas destinadas ao seu dia a dia, e ainda quando a criança é colocada na sociedade como foco do consumo desenfreado.

Nossa cultura popular é rica em possibilidades de interação e experimentações valiosas para o aprendizado em grupo. Cabe à escola, espaço estruturado para disseminar a cultura e o conhecimento, olhar de modo mais apurado em que tempo e em que lugar da sua rotina e do seu currículo é ou não valorizado o brincar. Que horários são estabelecidos para tal, o que é ofertado nestes momentos, qual repertório os educadores possuem, como são organizados os pátios, os parques, os cantos de atividades para estas situações educativas e qual a prioridade do brincar no planejamento institucional.

Nas escolas de ensino fundamental temos crianças de seis anos encarando a dura realidade de iniciar um processo de escolarização empobrecido quanto aos aspectos aqui colocados. As maiorias destas escolas ainda não estão preparadas para a chegada destas crianças, os espaços ainda não foram adequados aos seus tamanhos e alturas e, principalmente, a necessidade de incluir a cultura do brincar como parte viva do currículo. Com seis anos ainda fazem parte da primeira infância, “o tempo das silenciosas preparações”** (estamos preparados para olhar estas preparações?).

Brincar para aprender, para construir, para descobrir, para interagir, para criar, para imaginar, para ampliar vínculos sociais, para ser. Brincar para a criança não é mero passatempo, é aprendizado!

A criança não é e não deve ser vista como um mini-adulto, a criança é criança e ponto, é sujeito de direitos. E como tal deve ser respeitado em sua individualidade e necessidade de estabelecer vínculos de aprendizagem cognitiva, social e emocional com os outros, sejam adultos (educadores) mediadores deste processo, sejam outras crianças. Brincando a criança constrói vínculos afetivos e de confiança com o mundo, expressa e compreende seus medos e aflições, aprende a conviver em grupo, a considerar as regras, a crescentemente conviver de modo mais colaborativo e compartilhado. Brincar não é perda de tempo, é atividade humana, é coisa séria!

Cabe à escola rever seu papel social, afinando seu olhar sobre o brincar e sobre sua concepção de criança, para promover transformações qualitativas em sua prática pedagógica. Espaços e tempos, tanto do ponto de vista concreto dos ambientes – do que se desenha no chão, dos brinquedos do parque, por exemplo – quanto do ponto de vista conceitual – como se define e se concebe tais ambientes – para ganhar novos significados e promover ricas experiências para a educação infantil que deve primar pela exploração dos materiais diversos e resgatar valores que, no nosso dia e dia, vão se perdendo. Andar descalço, brincar com água, inventar novos brinquedos (ir além dos brinquedos já estruturados!), permitir e instigar a imaginação infantil, brincando com panos diversos que se transformam em cabanas, máscaras, capas ou mesmo em uma rede pressa em algum lugar.

A escola pode e deve ser um ambiente de sedução para a aprendizagem e o brincar é o conhecimento universal mais valioso para tornar este espaço social tão prazeroso e rico em informações, conteúdos e cultura.

 

* Graduada em Pedagogia pela Pontifícia Universidade Católica do Salvador, Gestão de Pessoas pela FGV, Diretora do Centro Educacional Infantil Luz e Lápis (ONG da AES Eletropaulo) e representante institucional na Rede Nacional Primeira Infância. Atua na área de educação desde 1992, tendo vasta experiência como Coordenadora Pedagógica e Professora de Educação Infantil e do Ensino Fundamental de escolas particulares, formadora de professores, consultora pedagógica de instituições públicas e privadas, gestora pedagógica de organizações do terceiro setor.

** Charles Péguy, poeta e escritor francês.